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A pedofilia é uma guerra a que se não pode dar tréguas

“As tecnologias de informação e de comunicação fazem parte do quotidiano das sociedades contemporâneas e, paulatinamente, a linha que separa o mundo físico do mundo virtual vai-se tornando cada vez mais ténue, quando não mesmo inexistente.

As crianças de hoje iniciam-se no mundo virtual pelos 6 ou 7 anos de idade. Se os seus pais, estão constantemente aceder a internet, como vamos fazer para pedir-lhes que não façam o mesmo? Impossível!

Assim, não surpreende que, para essas crianças, a família, a escola, os colegas e os divertimentos se encontrem todos no tal mundo virtual, a cujas portas podem aceder com um simples clique.

Nesse mundo fácil e maravilhoso, floresce uma imensa criminalidade oculta, onde o abuso sexual de menores, através das chamadas redes sociais, aumenta consideravelmente. E como começa esse abuso? Começa pela confiança!

Imaginemos uma menina de 11 anos, a Mónica, que gosta de conversar online. Pela via dos chats de plataformas de jogos e das tais redes sociais, tem muitos amigos virtuais, com os quais partilha parte da sua vida. Um dia, conhece um adulto, que finge ser um menino da sua idade, e ambos começam a tornar-se ‘amigos’. Ele é muito simpático para com ela e a Mónica sente que ele a entende melhor do que ninguém, e confia cada vez mais naquela amizade. Aos poucos desenvolve-se um ambiente de secretismo e de intimidade, onde deixa de haver espaço para a família, para os professores, para os colegas, para os amigos.

Um dia, o adulto pergunta a Mónica se ela se toca, e Mónica, embora não tenha a certeza do que tal significa, responde que sim. A partir daí, o adulto inicia conversas cada vez mais explícitas sobre sexo e sobre relações sexuais que eles podem vir a ter. As conversas continuam, e ele começa a enviar fotos e vídeos de conteúdo lascivo para a sua interlocutora.

Depois, e de acordo com o andar das coisas, ele pede a Mónica que lhe envie uma foto dela nua e, se a Mónica recusar, ele ameaça-a de que, se não o fizer, a sua amizade terminará, prometendo-lhe revelar todos os segredos que lhe contou na ‘net’. Mónica cede e envia uma sua foto nua. O passo seguinte é o contacto físico, isto é, convencer a criança a um encontro, com o objetivo de consumar os seus (dele) pervertidos desígnios.

Este tipo de ofensa é conhecido por grooming (crime de abuso sexual de crianças). A maior parte dos ditos abusos são praticados com vítimas entre os 9 e os 15 anos, afetando ambos os sexos, e pode prolongar-se durante meses ou mesmo anos, causando graves traumatismos a quem os sofre, que não denuncia por medo de represálias.

Entre 10 a 20% da população mundial, já foi vítima de abusos sexuais na infância, e apenas 15% dos abusos foram denunciados

O Relatório Anual de Segurança Interna, de 2020, não é explícito quanto ao número de inquéritos por grooming. Indica apenas que esse número cresceu face a 2019, e que a maior parte das detenções tem por base o crime de abuso sexual de crianças seguido dos crimes de violação e de pornografia de menores.

Identifica o escalão etário das vítimas, compreendidas entre as idades de 8 e 13 anos, e dos abusadores, compreendidos entre as idades de 31 e 40 anos e de 41 e 50 anos, e, ainda, entre as idades de 21 e 30 anos e de 51 e 60 anos. Estes escalões etários constituem grande preocupação e demonstra que, entre as idades de 21 e 60 anos, as nossas sociedades coabitam com predadores.

Existem diferentes perfis de abusadores: uns, os que estabelecem um interesse sexual ‘romântico’ pelas suas vítimas, são sempre afáveis; outros, os que procuram satisfazer as suas pulsões sexuais de forma imediata, são conhecidos por ‘colecionadores’. Estes últimos são assim apelidados por possuírem grande quantidade de vídeos e de fotos de pornografia infantil, e de andarem constantemente à procura de adolescentes vulneráveis.

Esses ‘colecionadores’, assim o dizem os psicólogos forenses, têm bom nível de estudos, em geral são licenciados e com emprego, não exageram no consumo do álcool, nem no uso de drogas. São conhecidos pela consciência do crime que praticam. No passado também foram vítimas de abuso sexual, e consideram que as crianças ou os adolescentes são objeto sexual de pleno direito. Tudo o que fazem acham que teve consentimento e foi do desejo dos abusados, os quais, na ótica deste tipo de predador, não sofrem. Bem pelo contrário, têm prazer.

A pedofilia prevalece entre 4 a 10% da população masculina em geral.

A ONG ‘Save The Children’ afirma que, entre 10 a 20% da população mundial, já foi vítima de abusos sexuais na infância, e estima que apenas 15% dos abusos foram denunciados.

Ansiedade e depressão são as consequências psicológicas mais habituais de que padecem as vítimas de pedofilia, com sequelas diversas em função do tipo de abuso e do apoio recebido. Depois, seguem-se problemas com o rendimento escolar, a sociabilidade e a afetividade. Com efeito, as crianças ou os adolescentes perdem a autoestima e a confiança em si próprios, sofrendo uma forte diminuição de concentração e de atenção nas aulas. O seu desinteresse chega até às atividades de lazer de que tanto gostavam. Os danos são indubitavelmente brutais e irreversíveis.

O fenómeno é muito complexo e não existe fórmula mágica para o resolver, temos apenas a via da prevenção e especialmente proporcionar uma educação positiva aos nossos meninos e meninas para que cheguem felizes à maioridade. A pedofilia é mesmo uma guerra a que se não pode dar tréguas.”

fonte adv J.DANTAS RODRIGUES noticiasaominuto.com

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noticiasaominuto.com
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