Cultura

Derivas Pop na Gulbenkian

Duas centenas de obras, muitas inéditas, na exposição Pós-Pop. Fora do lugar-comum, na Gulbenkian, até setembro. É uma exposição que acusa o “jet lag “com que a pop art chegou a Portugal e alguns “desvios” ao seu “receituário” em artistas portugueses e ingleses, como diz ao JL a curadora Ana Vasconcelos. E que não se cinge às questões estéticas, equaciona os aspetos sociais, culturais e políticos da sociedade portuguesa

Paula Rego, Eduardo Batarda, Menez, João Cutileiro, José de Guimarães, Allen Jones, Patrick Caulfield, Jeremy Moon ou Bernard Cohen são alguns dos artistas, portugueses e ingleses, cujas obras podem ser vistas em Pós-Pop. Fora do lugar-comum, que ocupa a galeria do edifício-sede da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. Ao todo, são cerca de 200 obras que configuram um universo desviante do próprio figurino consagrado da pop art.
É uma década, de 1965 a 1975, numa exposição que reflete, segundo adianta ao JL Ana Vasconcelos, que assina a curadoria com Patrícia Rosas, o “contexto de chegada das ideias e propostas da pop a Portugal”, desde logo com algum “jet lag”, anos depois do surgimento e afirmação nos Estados Unidos ou em Inglaterra. Daí a própria ideia de uma “pós-pop”. “E parte do que foi a pop, sem se fixar na receita, integrando uma multiplicidade de derivas, de desvios, que a enriquecem na interpretação da periferia”, adianta ainda.
Um lugar periférico, tanto no estrito entendimento geográfico, no caso dos artistas portugueses que trabalhavam a partir do país, embora alguns tivessem passado por Londres, como na atitude criadora dos ingleses representados para quem a pop não era um “receituário”, para seguir à letra, apesar de explorarem as questões da comunicação de uma forma visualmente estimulante. “A pop tem que ver com uma democratização da arte, com uma atenção ao quotidiano e à vida, com uma forte comunicação para interpelar as pessoas e conviver com elas”, observa Ana Vasconcelos. “Em Inglaterra, a cultura era muito elitista e fechada. Os jovens das classes mais baixas nem entravam nas escolas de arte mais conceituadas. E no pós-guerra, isso começa a mudar. Exemplo disso é David Hockney, que veio da província, de uma família modesta, para o Royal College, tal como aconteceria com Allen Jones ou Patrick Caulfield. A pop potenciou essas transformações”.
O ‘convívio ‘com os artistas ingleses na exposição decorre do facto de haver um número significativo de obras inglesas desse período que integram a Coleção Moderna da Gulbenkian, algumas das quais presentes na exposição e a que se acrescentaram outras vindas das coleções do Arts Council e do British Council de Londres, parceiro na produção da mostra. “Trabalhei muito a coleção e os aspetos em torno da pop. Depois, os artistas que não lhe aderiram, mas que derivavam a partir da pop e achei que abriam o jogo, o campo de análise para outras questões, que a transcendem”, salienta por outro lado a curadora.

Armas visuais
O desenho de Pós-Pop. Fora do lugar-comum tornar-se-ia mais preciso, quando Ana Vasconcelos descobriu, por exemplo, o espólio de Teresa Magalhães, de quem se expuseram duas peças numa exposição dos anos 70, na Gulbenkian, Atravessar Fronteiras. Uma “surpresa”, diz. “Ela tinha em casa uma série de obras, criadas no final dos anos 60, início dos 70, que tinham uma deriva pop. Ou seja, eram interpretações tardias, feitas em Portugal, por uma portuguesa, mas que tinha ido a Londres e absorvido o ar do tempo”, explica. “Por isso, criou peças onde as questões da pop estão transformadas e ligadas a outras que especificamente tinham a ver com a cultura portuguesa e com a maneira como na altura absorvíamos o que se passava a nível internacional”.
Quase todas as obras de Teresa Magalhães expostas em Pós-Pop são apresentadas pela primeira vez, tal como as de Maria José Aguiar. Houve mesmo a preocupação de mostrar a produção “muito forte e interessante”, nessa época, de mulheres que ficaram um pouco na “penumbra”, tendo caído num certo “esquecimento”, apesar de terem continuado a trabalhar. Daí um eixo feminino forte, com artistas como Lourdes Castro, Ana Vieira, Ana Hatherly, do período em que viveu em Londres, Fátima Vaz ou Clara Meneres, de quem se mostra um conjunto de bordados em bastidor e o Relicário, de 1969, que causou um enorme escândalo. “São peças em que há um espírito pop e, ao mesmo tempo, uma provocação social, numa sociedade paralisada como aquela em que se vivia”, diz a curadora. “Acho que a exposição fica mais forte, porque não está apenas centrada em aspetos estéticos, apesar de serem abordados, por exemplo, a questão do visível, do plano, da maneira como a imagem dialoga com o observador, da sua construção, ou da deriva para a abstração pop e depois minimal”.
Pós-Pop. Fora do lugar-comum organiza-se, de resto, em três áreas documentais, em que se cruzam elementos sobre a moda, os penteados, a música, com duas ‘bandas sonoras’, uma de yé-yé português, outra de canções de intervenção, o cinema, o corpo, o erotismo ou a dupla maneira de ver a mulher, como objeto sexualizado ou libertada, dando conta das mentalidades da época e das suas transformações. São zonas que abrem para assuntos “transversais”, por exemplo, da intervenção social da arte ou para acontecimentos relevantes, nesse período, como a publicação das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Velho da costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. “Procurámos contextualizar as pessoas na época, sem perder de vista a progressão mais formal a nível artístico”, faz notar a curadora.
Outro trabalho em destaque é o de Ruy Leitão, um artista dessa geração que morreu aos 27 anos, tendo vivido em Londres, onde foi aluno de Patrick Caulfield, referência da pop britânica, também numa “deriva especial”, menos colada à pop americana, “mais dura e ligada à publicidade, com uma grande execução técnica”, enquanto a inglesa é mais “feita sobre a cultura material, com uma maior nostalgia”. “Ruy Leitão tem uma carreira limitada, mas muito forte em termos visuais e refletiu sobre tudo isto, fazendo uma crítica ao próprio contexto”, adianta a curadora.
Depois da demanda de Paris, nos anos 60, Londres passou a estar na rota dos artistas portugueses, ainda antes do 25 de Abril, alguns com bolsas da Gulbenkian, na sua tentativa de sair de um país fechado e conseguir respirar o “ar do tempo” e isso foi transformador das suas obras. “Foi um burburinho com esses artistas formados em Londres, que queriam viver em liberdade e as pessoas estavam ansiosas para que o regime colapsasse”, sublinha Ana Vasconcelos. “A Gulbenkian teve, nesse sentido, um papel extraordinário, permitindo que a oposição ao regime se fizesse pela educação. E ajudou a mudar Portugal”.
As circunstâncias políticas e sociais que se viviam em Portugal determinaram a própria crítica inerente a algumas das obras expostas. “A pop tem sido avaliada retrospetivamente, mas ainda está na ordem do dia. E tornou-se mais global, derivou dos grandes centros emissores para outras zonas do globo. E há hoje também uma tentativa de compreensão do modo como foi utilizada nos regimes autoritários, não apenas em Portugal e Espanha, mas no Leste, como uma linguagem de revolta”, acrescenta. “A pop e as suas derivas, transcrições para os vários lugares, foram usadas artística e culturalmente para romper o status quo dos regimes totalitários. Tal como a abstração. E cá, os artistas também usaram estas armas visuais para comentarem a situação que se vivia, mesmo que não fossem contestatários, por exemplo com o uso do erotismo como arma política ou de comentários laterais sobre a guerra colonial. Até porque a censura obrigava a dizer as coisas de outra maneira, fora do campo da literalidade”.
Nesse sentido, um dos pontos mais fortes politicamente da mostra está numa das entradas da coleção do Fundador, onde podem ser vistas as obras de José de Guimarães, feitas e expostas em Luanda, em 1968, mas também de António Palolo, Paula Rego, Eduardo Batarda ou Nikias Skapinakis sobre o 25 de Abril. São obras com um cunho mais interventivo e social”.
De João Cutileiro, apresentam-se duas esculturas inéditas, assim como obras pouco vistas de Cruz-Filipe, Sá Nogueira, Fernando Calhau, Manuel Baptista, Sérgio Pombo ou João Abel Manta. Em paralelo à exposição, realizam-se visitas guiadas, uma conferência de Alex Seago sobre o design e a pop art e decorrerá, até meados de julho, uma série de encontros sobre as relações com a política, o cineclubismo, o jazz, a banda desenhada, o feminismo ou a música.

FONTE Maria Leonor Nunes VISAO.SAPO.PT

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