Cultura

Na Fábrica das Artes em Lisboa fazem-se perguntas para criar inquietação

A Fábrica das Artes tem a obrigação "de fazer coisas disruptivas", de "fazer perguntas para criar inquietação", afirmou à Lusa a programadora Madalena Wallenstein, há uma década à frente do serviço educativo do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

A Fábrica das Artes, criada em 2009 para reformular o serviço educativo do CCB até aí designado Centro de Pedagogia e Animação, está a cumprir uma década de atividade e programação dedicada a todos os públicos, dos bebés aos mais velhos, e, como sublinha Madalena Wallenstein, “a todas as infâncias”.

“Há uma coerência, uma intenção estética; pretende abrir espaços para os mais novos, fazer equilíbrios entre gerações e pretende fazer o que falta fazer. Se não é o espaço cultural a fazer (…) alguma coisa de disruptivo, não sei onde é que se pode fazer”, disse a programadora.

Numa década, a Fábrica das Artes programou de forma autónoma e em diálogo com o fio cultural do CCB, abrindo espaço para mais oficinas de criação e de pensamento para crianças e jovens, atividades específicas para adultos, para público escolar e para famílias, naquilo que Madalena Wallenstein defende há três décadas: a educação pela arte.

“Aqui, trazendo em nós esta capacidade que a arte tem de defender a liberdade e a experimentação, temos mesmo obrigação de fazer as coisas disruptivas. E não há nada melhor do que fazer perguntas para criar inquietação, espanto, desejo de procurar”, sublinhou.

Nesse trabalho com diferentes públicos, em particular com crianças, adolescentes, famílias, Madalena Wallenstein acredita que “é com boa arte que se faz boa educação artística. Não é necessariamente a explicar tudo, isso pertence à educação formal. É viver artisticamente as experiências intensas”.

Só lamenta que as famílias estejam “muito sobrecarregadas com o peso da escola nas suas vidas, nos tempos livres”, e que a escola esteja “fortemente fechada sobre si mesma, com todos os esforços de se abrir e de se transformar”.

Olhando para a frequência da Fábrica das Artes, da assistência em sala e nas oficinas, a programadora diz que reconhece quando é que as crianças e os jovens têm de estudar mais, de se preparar para os momentos de avaliação escolar. “As famílias desaparecem”.

O modelo de ensino “tem de ser revisto, porque os miúdos estão exaustos. Chegam a adultos exauridos de trabalho e isso permite a displicência. Não é saudável. É preciso haver uma vivência das coisas, da vida, dos tempos, do lazer, da experiência do encontro com os outros, de educar de outra maneira, de participar, meter as mãos na massa, com pais e sem pais”.

Nesta década na Fábrica das Artes, Madalena Wallenstein vai reconhecendo caras, de espectadores que foram crescendo com a programação do espaço, que já são chamados para participarem no processo criativo de programação juntamente com os artistas.

“Eu acho que essa característica da Fábrica é apelativa. É preciso chamar o público, lutar por ele, seduzi-lo”, disse.

Fábrica das Artes programa ciclo “A cabeça entre as mãos” sobre o cérebro

Curiosidade, medo, solidão, consciência, tudo isso cabe no cérebro humano e num ciclo de espetáculos e oficinas que a Fábrica das Artes, o serviço educativo do Centro Cultural de Belém, programa para os próximos três meses em Lisboa.

Intitulado “A cabeça entre as mãos”, o ciclo começa no dia 23 e prolongar-se-á até março com uma extensa programação de música, teatro, oficinas e uma exposição sobre o cérebro, tendo como ponto de partida um livro ilustrado e três perguntas, como contou à Lusa a programadora da Fábrica das Artes, Madalena Wallenstein.

O núcleo deste ciclo é uma exposição criada a partir do livro “Cá dentro”, escrito por Isabel Minhós Martins e Maria Manuel Fonseca e ilustrado por Madalena Matoso. É a partir dele que se estruturam vários percursos associados às neurociências e ao pensamento.

“Se pensarmos bem, não deixa de ser irónico (e até cómico) que o órgão que faz de nós aquilo que somos – seres que pensam, dançam, inventam, que se comovem e choram ou que são capazes de dar gargalhadas -, o órgão responsável por tudo isso, é uma massa esquisita e acinzentada, enrolada como uma noz e com uma textura próxima à de um cogumelo: um cérebro”, lê-se nas primeiras páginas do livro, editado em 2017 pela Planeta Tangerina.

Ao longo do livro, as autoras deixam ainda interrogações e respostas sobre a relação entre o cérebro e a felicidade, sobre alimentação, sono e prazer, sobre capacidades artísticas e motoras do ser humano, revelam como funciona o cérebro de alguns animais e apresentam factos e mitos associados a “uma das estruturas mais complexas e misteriosas do universo”.

Na Fábrica das Artes, o livro é convertido sobretudo em oficinas para todas as idades, de música, de artes plásticas, de artes visuais, de escrita criativa e de filosofia.

“Quis partir de três perguntas: O que é que nos acontece quando lemos um livro? Por que perdemos a noção de tempo quando brincamos? Como criamos memórias de uma nova paisagem? A exposição tem três portas de entrada e escolhemos a pergunta que queremos seguir e depois desdobra-se em muitas coisas”, contou Madalena Wallenstein.

Rita Pedro e Dina Mendonça, da área da Filosofia, farão uma oficina de filosofia para maiores de oito anos, sobre emoções, a mente e a memória, Ana Rita Fonseca e Patrícia Correia, ligadas às neurociências, dedicarão uma oficina para adolescentes para falarem de consensos.

Madalena Matoso prepara uma oficina de artes plásticas para todas as idades que se apresenta como uma instalação coletiva que irá crescer à medida da participação dos espectadores durante o trimestre.

Destaque ainda para uma oficina “neuro-gastronómica” para adultos, conduzida por Patrícia Correia e Marina Garcia para “saborear diferentes alimentos e entender como o cérebro consegue fazer degustações”.

O ciclo contará ainda com dois momentos de música e teatro, ambos encomendas da Fábrica das Artes, ambos em estreia.

A partir do livro infantil “O pequeno livro dos medos”, que Sérgio Godinho escreveu e ilustrou, o CCB convidou-o a fazer um concerto “para todas as infâncias”, tendo como tema central o medo. Em palco, de 08 a 10 de março, Sérgio Godinho contará com o pianista Filipe Raposo e na produção de imagem com o realizador André Godinho.

A 28 de março estreia-se a peça “A bolha”, uma criação do coletivo Os Possessos, de João Pedro Mamede e Catarina Rôlo Salgueiro, sobre alienação e adolescência.

 

FONTE MadreMedia / Lusa 24.SAPO.PT

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