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Volta o governo Liga-Cinco Estrelas? Na Itália nunca se sabe

Na manhã desta quarta-feira, os jornais diziam iminente um “governo neutral” do Presidente. A meio da manhã, anunciavam um acordo iminente entre a Liga e o Cinco Estrelas, com Berlusconi de fora.

É a mais recente pirueta política de Luigi Di Maio e Matteo Salvini, líderes do Movimento 5 Estrelas (M5S) e da Liga. Quando, esgotados todos os prazos, parecia iminente a nomeação de um governo “neutral” pelo Presidente italiano Sergio Mattarella, Di Maio e Salvini pediram-lhe “mais 24 horas” para apresentar uma solução. O Quirinal não podia recusar o pedido de dois partidos que têm uma maioria absoluta. Há dois sinais significativos. Di Maio mudou de tom em relação a Berlusconi e este ficaria fora do negócio. O Cavaliere deu luz verde, garantindo que não “imporá vetos”, ao mesmo tempo que não fará parte de uma futura coligação.

“O acordo está a um passo, digamos que está em 75%”, disse aos jornalistas o chefe do grupo parlamentar da Liga. Os “dois vencedores” das eleições de 4 de Março começaram por negociar um acordo de governo mas romperam as conversações e durante semanas trocaram ataques e insultos. Perante a perspectiva de um “governo do Presidente”, para cuja chefia se indicava o nome de Elisabetta Bellonia, secretária-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, os “dois vencedores” contra-atacam e tentam pôr-se de acordo.

Para lá de notórias divergências políticas, um factor bloqueava o acordo: Silvio Berlusconi. O M5S exigia que Salvini se separasse da Força Itália (FI) do Cavaliere. Salvini recusava porque não convinha à Liga romper a aliança do centro-direita. Mas Berlusconi seria sempre um tabu para o M5S. No parlamento tratavam-no de “delinquente” e qualificaram-no como “o mal absoluto” da Itália. Por outro lado, Di Maio exigia a chefia do governo por ter mais deputados que a Liga. Salvini respondia que a coligação do centro-direita era maioritária.

Vários politólogos demonstraram a impossibilidade da aliança dos “dois vencedores”. A seguir à sua ruptura, houve, por pressão de Mattarella, um simulacro de diálogo entre o M5S e o Partido Democrático (PD), que não chegou a existir porque a negociação foi recusada pelo PD, por imposição do seu ex-líder, Matteo Renzi.

Cambalhotas

Di Maio nunca escondeu a sua preferência por governar com a Liga, mas sem a FI. Na semana passada deu o primeiro passo atrás: desistiu da exigência de ser primeiro-ministro. Na terça-feira de manhã, Giancarlo Giorgetti, vice-presidente da Liga e estratega de Salvini, pediu mais um gesto a Di Maio: “Diz qualquer coisa de agradável sobre Berlusconi em que reconheças a dignidade da Força Itália e dos seus milhões de eleitores. Que é que vos custa? Um último esforço.”

Horas depois, Di Maio respondia: “Silvio Berlusconi? É o menos responsável pelo impasse em que nos encontramos e pelo regresso às urnas.” E, sobretudo, isto: “O nosso veto não é contra ele. O que queremos é dialogar com a Liga para fazermos um governo sozinhos.”

Por outro lado, Di Maio pediu ao seu movimento que baixasse o tom das palavras contra Berlusconi e, em particular, a Alessandro Di Battista que deixasse de fazer comentários. Di Battista, um grillista “puro e duro”, é o autor dos mais sonoros ataques ao Cavaliere. Esta inflexão poderá ser vista “pelas bases” como um golpe na pureza e coerência do movimento. Mas o poder é o poder e a estratégia parece ter funcionado.

Em troca, Salvini dá ao M5S algo de fundamental: a FI não fará parte do governo nem da maioria parlamentar, prevendo-se a abstenção dos seus deputados. A coligação do centro-direita não se rompe formalmente mas tenta-se dar uma saída airosa a Berlusconi.

Giovanni Toti, presidente da região da Ligúria e um dos expoentes da FI, afirmou que o partido não participará na maioria nem se compromete a dar-lhe um apoio externo. Pediu a Berlusconi “uma espécie de abstenção benévola” — e é isso mesmo que este diz que fará.

A questão das eleições

Salvini e Di Maio têm pedido eleições antecipadas e prometeram “chumbar” qualquer governo “neutral”, o que levaria a eleições. E, tendo uma maioria, não desejarão desperdiçá-la. O jornal digital Linkiesta fala na “síndrome de Theresa May”: com base em sondagens favoráveis convocou as eleições antecipadas de 2017 e saiu depenada. Salvini, o mais beneficiado nas sondagens recentes, sabe quanto os italianos “são volúveis”.

Fica no ar uma grande interrogação: terá Mattarella jogado a ameaça do governo “neutral” para encostar à parede os dois partidos? Se assim foi, resultou.

Quais os efeitos políticos de uma coligações de dois “populismos”, um de extrema-direita outro dito “pós-ideológico”? Não vale a pena especular. Diz a experiência: na Itália, o que hoje é verdade pode ser amanhã desmentido. Aguarde-se o que hoje se passará em Roma.

FONTE PUBLICO.PT

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