Cultura

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos Terra – porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra.

Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora – e, até, retrógrada – do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos… e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Os que viram nesses líderes zangados a sua imagem elegeram-nos na esperança de que pudessem fazer o tempo voltar para trás. Vem daí a raiva demonstrada por Greta, não por causa do que ela é mas pelo que representa – a visão de um futuro diferente, e inconveniente, para citar alguém que já anda a falar disto há muito tempo, o ex-vice-presidente americano Al Gore (e de quem poucos se lembram).

Problema: como tantos e tantos estudos têm demonstrado, o tempo não volta para trás. Até anda cada vez mais rápido para a frente, nomeadamente em direção à mudança – que pode chegar até ao limite do suportável. “Catastrofistas”, dizem eles, metendo a cabeça na areia. Não seria grave se estas ideias não continuassem a ganhar eleições e a espalhar o negacionismo climático por cada vez mais poderes institucionais. Desta forma, cada vez mais longe estaremos da solução, porque o que é preciso fazer é tão mudança de paradigma que não comporta remendos. Ninguém está preparado: nem governos que reconhecem o problema, quanto mais os que o negam sistematicamente.

Resta-nos a ONU, se não voltar à profecia da simpática inoperância. E a União Europeia, que tem aqui novamente a oportunidade de vir a liderar uma mudança no mundo, depois da modorra dos últimos anos.

Ursula von der Leyen disse que o seu green deal vai ser uma estratégia de crescimento – mas a questão pode começar logo aí. Há já muito quem questione se podemos mudar alguma coisa com um mundo com um paradigma de crescimento económico em que a hierarquia das nações se continua a fazer através do PIB, e com a economia a dominar todos os assuntos, em vez de um novo enfoque no bem-estar, do qual faz parte, obviamente, o ambiente. Não ajuda que o assunto do clima esteja entregue ao vice-presidente Timmermans, enquanto todos os assuntos que o podem alterar estiverem no portfólio do outro vice, o conservador Dombrovskis.

Veremos o que a geração-clima de Greta, entre outros, conseguirá fazer nas ruas para pressionar os gabinetes. Sendo, nesta questão, a força dos gabinetes mesmo a mais importante: só 20% do que ao clima diz respeito está dependente de vontades individuais como deixar de usar sacos plásticos, o resto diz respeito a assuntos mais estruturais como produção de energia, leis, questões infraestruturais. Eis porque a eleição desta semana é tão importante.

 

FONTE Catarina Carvalho  DN.PT

 

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DN.PT
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