Cultura

Morreu o artista plástico Júlio Pomar

A arte para ele era a própria vida, tão fundamental como o acto de respirar. Tinha 92 anos.

ENRIC VIVES-RUBIO

Júlio Pomar morreu nesta terça-feira no Hospital da Luz, em Lisboa, confirmou ao PÚBLICO Sara Antónia Matos, directora do Atelier-Museu Júlio Pomar. Contava 92 anos, e até há bem pouco tempo era possível vê-lo de visita ao Atelier-Museu Júlio Pomar, perto da calçada do Combro, situado mesmo em frente à casa onde vivia. Aqui, desde 2013, abriu as portas a inúmeros diálogos entre a sua obra e artistas e curadores de diferentes gerações, em programações de grande qualidade que contribuíram para a divulgação da sua obra junto de artistas mais jovens.

A este facto não será alheio, sem dúvida, o comprometimento político que marcou os primeiros anos da sua carreira, e que é hoje também uma norma para boa parte dos jovens artistas. Júlio Pomar entrou muito cedo, em 1934, para a António Arroio, onde foi colega de artistas como Marcelino Vespeira, Cesariny e Cruzeiro Seixas. Aqui preparou a sua admissão às Belas-Artes de Lisboa, em 1942, que viria a frequentar apenas durante dois anos. Alvo de discriminação, como todos os alunos oriundos da António Arroio, mudou-se para as Belas-Artes do Porto em 44, onde conhece Fernando Lanhas, de quem foi amigo, e com quem participa nas Exposições Independentes que se realizavam naquela cidade nortenha.

Um ano mais tarde realiza a primeira obra neo-realista, O Gadanheiro, que, com o Almoço do Trolha, é uma das mais conhecidas deste movimento em Portugal, que reuniu também os pintores Vespeira, Querubim Lapa, Alice Jorge e outros, numa procura da forma herdada do realismo oitocentista que exprimisse o viver e o quotidiano das classes mais desfavorecidas, teorizada em Portugal por pensadores como Mário Dionísio ou Ernesto de Sousa. Ao mesmo tempo, Pomar integrava o Partido Comunista e o MUD juvenil (que lhe valeria a prisão), e a partir de 1956 foi um dos organizadores e um dos participantes nas Exposições Gerais de Artes Plásticas, que se opunham às mostras oficiais organizadas pelo regime.

Estes tempos são de intensa actividade – é também por esta altura que Júlio Pomar começa a escrever textos teóricos e de reflexão pessoal sobre a arte, reunidos e publicados nos anos mais recentes. Com frequência, é esta a época que se associa imediatamente ao nome do pintor. Mas a sua obra, que tocou inúmeras áreas, da pintura ao desenho, da gravura à cerâmica, da assemblage ao azulejo (são dele as decorações da estação do Alto dos Moinhos do Metropolitano de Lisboa) vai muito além desta primeira fase neo-realista. Sobrevive nestes tempos de juventude graças a trabalhos vários de decoração e ilustração, vendendo raramente alguma pintura.

Ao mesmo tempo, viaja regularmente, uma actividade que só abrandou nos últimos anos de vida. Madrid e Paris são as primeiras cidades visitadas,seguindo-se a Itália e Marrocos. Da primeira, traz a recordação dos negros goyescos que encontraremos na sua pintura na década de 60. Em Paris, para onde se muda em 1963, estuda plasticamente a obra de Ingres e Matisse, por exemplo, e encontraremos uma revisitação dos papéis colados deste último nas colagens eróticas da década de 70. Pomar pinta muito, obsessivamente quase, tendo já substituído nesta época o rígido contorno neo-realista (e abandonado a sua ligação ao Partido Comunista), de inspiração sul-americana, por um traço livre e expressivo que se alia à exploração da riqueza cromática do mundo.

Como Picasso, podemos dizer de Pomar que toda a arte do passado que o interessasse passava pelo seu pincel – ou pela ponta seca da gravura, ou pelo lápis de desenhar – num vai-vem constante entre a obra que se fazia e os mestres de outros tempos. Tudo lhe servia para criar, quer fossem os temas populares – e recordamos há bem pouco tempo uma exposição sobre a sua cerâmica que teve lugar em Lisboa, no Atelier-Museu Júlio Pomar, comissariada por Catarina Rosendo, onde se viam reinterpretações surpreendentes dos motivos etnográficos portugueses –, quer os índios Xingu (de uma série de 1988) a figura de Frida Khalo (outra série de 1999), ou mesmo o retrato oficial do presidente da República Mário Soares, passando por retratos de pintores e escritores, ou tigres, macacos, touros, tartarugas e outros, não raro adoptando feições e traços humanos, talvez em homenagem às ilustrações que realizava quando novo.

FONTE Luísa Soares de Oliveira PUBLICO.PT

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