Nacional

Polícia de paz

O futuro do policiamento de proximidade passará por corporações policiais diferentes das existentes, menos paramilitarizadas, mais urbanas, mais sociais, e onde a brutalidade não entra.

A insegurança é um sentimento que provoca ansiedade e que se agrava com a divulgação a toda a hora e a todo o instante, de notícias sobre atividades de bandos perigosos, com todo o seu cortejo de roubos, de agressões violentas e de assassinatos.

Embora Lisboa e Porto sejam das cidades mais seguras do mundo, é indesmentível que existem problemas crescentes de delinquência juvenil (até aos 35 anos) envolvendo uma escalada de confrontos entre os seus membros, para ganharem notoriedade e serem os dominadores territoriais dos negócios de tráfico de droga e dos roubos planeados em que a vítima e os bens são devidamente estudados. Rouba-se o que os recetadores comprarem, seja um automóvel, seja ouro ou joias.

As razões de uma criminalidade cada vez mais jovem, encontramos nas famílias destruturadas monoparentais e numa escola cada vez mais distanciada da vida real, onde faltam referências culturais. Os “elementos de referência” que não têm em suas famílias encontram nos gangues onde se passeiam equipados de facas e de coletes balísticos.

A segurança constitui um direito dos cidadãos, não é um problema meramente nacional, mas europeu, encontrar melhores soluções de segurança passará, forçosamente, por um melhor policiamento, nos bairros, nas ruas, nas escolas.

Tristemente constatamos que não podemos circular por alguns bairros e ruas, que se transformaram em locais proibidos, conhecidos por «no-go zones». O medo de se ser vítima de crime urbano, leva a escolher outros percursos, bem longe do bairro onde reina um qualquer soba tribal, onde toda e qualquer brutalidade é legítima, desde que se cumpra a vontade do «soba» e se impeça a circulação de pessoas não desejadas

Nas «no-go zones». nem a polícia entra, exceto quando se organiza uma megaoperação policial, devidamente noticiada para se apanhar algumas gramas de droga e alguma arma esquecida para a operação policial não ser um logro.

Em França, em janeiro do ano passado, Emmanuel Macron, preocupado igualmente com a delinquência juvenil, decidiu fortalecer a segurança pública com a criação de um corpo parapolicial operacional constituído por jovens vindos da sociedade civil, por polícias aposentados e por ex-seguranças privados. Os «gardiens de la paix» («polícias de paz»)

Têm por missão estar o mais próximo possível dos cidadãos, seja no bairro, ou seja, junto dos estabelecimentos de animação noturna. Prestam ajuda e assistência a quem delas precise, previnem a criminalidade, inserindo-se no tecido social de forma pacífica, tentando compreender os problemas e dar-lhes uma resolução satisfatória.

Não têm o estigma das forças policiais tradicionais que, por norma, são olhadas com desconfiança, sobretudo pelos jovens pela relação deteriorada que sempre mantiveram.

Os candidatos, após superarem as provas de aptidão física e psicológica, submetem-se a uma formação na escola de polícia durante um ano, seguida de um estágio por igual período. Adquirem competências no domínio da investigação, conhecimentos de direito penal e processual penal, no quadro do combate à violência urbana, e, em ambientes sensíveis, conhecimento dos bairros e técnicas de gestão de tensões. Depois, equipados com um rádio para comunicar com os outros «gardiens», com um colete balístico, com uma pistola «taser», arma não letal de electrochoque usada para incapacitar temporariamente o alvo, e, ainda, com uma arma de serviço (pistola Sig Sauer), estão prontos para o giro de rua, a fim de prevenir e controlar a criminalidade.

Enfim, muito se espera da «polícia de paz», vendo nela uma lufada de ar fresco que estabeleça, como prioridade absoluta, um vínculo reforçado com as populações e sobretudo com os jovens. Espanha, por exemplo, estuda a possibilidade de a criar, começando por Barcelona.

Queiramos ou não, o futuro do policiamento de proximidade passará por corporações policiais diferentes das existentes, menos paramilitarizadas, mais urbanas, mais sociais, e onde a brutalidade não entra.

FONTE Adv JOAQUIM DANTAS RODRIGUES

Fonte
OBSERVADOR.PT
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