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“A única coisa que nos vai ajudar a sair desta crise é a investigação científica”

Caetano Reis e Sousa dirige o Laboratório de Imunobiologia no Instituto Francis Crick, no Reino Unido, onde integra também a direção científica. Doutorado na Universidade de Oxford, é desde o ano passado membro da Royal Society britânica. Já neste ano ganhou o Prémio Bial de Biomedicina.

O Instituto Francis Crick, uma referência internacional na investigação em ciências biomédicas também participa desde há semanas no Reino Unido no esforço do diagnóstico de doentes de covid-19 e é o laboratório do Caetano Reis e Sousa que lidera essa área na instituição. É também o seu laboratório que está a desenvolver um teste de diagnóstico rápido para ser usado em larga escala e sem necessidade de equipamentos pesados, mas ainda sem data certa para estar pronto. Será “o mais depressa possível”, diz o investigador, que integra igualmente a direção científica do instituto.

Era ainda estudante quando decidiu sair de Portugal. “Fiz o liceu até 11º ano em Lisboa, e depois saí de Portugal, porque tive oportunidade de concluir o liceu no País de Gales, no Reino Unido”, conta. Depois não parou. Fez biologia no Imperial College de Londres e em 1992 doutorou-se em imunobiologia na Universidade de Oxford. Rumou então aos Estados Unidos, onde fez investigação científica nos National Institutes of Health, e em 1998 regressou a Londres, onde passou a liderar o laboratório de imunobiologia do Cancer Research UK, que em 2015 foi integrado no Instituto Francis Crick.

Cientista premiado e reconhecido pelo seu contributo na área da imunobiologia associada ao cancro, Caetano Reis e Sousa foi eleito no ano passado membro da Royal Society britânica pelas suas “contribuições para perceber os mecanismos pelos quais o sistema imunitário deteta a invasão de patógenos, cancro e danos nos tecidos”, como foi anunciado na altura pelo Instituto Francis Crick. Já este ano, o investigador ganhou o Prémio Bial de Biomedicina.

Em entrevista ao DN, o cientista fala dos desafios que a nova pandemia coloca, da imprudência do Reino Unido na sua aposta inicial na imunidade de grupo em relação ao SARS-CoV-2, numa altura em que se desconhecem os seus parâmetros, e do esforço que os cientistas estão a fazer para compreender o vírus e a doença. A solução, diz, há de vir daí.

A pandemia de covid-19 veio mudar abruptamente as nossas vidas. Também mudou a sua?
Sim, mudou muito. E de todos nós no instituto. Muita gente está a trabalhar em casa. A nossa investigação habitual está parada, mas há investigadores que estão nos laboratórios a trabalhar em diferentes questões sobre este vírus. A minha equipa também. Estamos a fazer testes de rastreio do pessoal médico do University College London Hospital, e de outros hospitais.

Estão só a trabalhar em covid-19 no instituto, nesta altura?
Sim. O dia-a-dia da investigação, num instituto de 1500 pessoas, está reduzido a cerca de 200. No meu laboratório fazemos a testagem e o objetivo é ter os resultados o mais rapidamente possível. Para além disso há vários outros programas de investigação em covid-19 que estão a ser iniciados no instituto. No meu grupo estamos também a desenvolver novos métodos mais rápidos de deteção do vírus.

Como é que esses testes diagnóstico rápido poderão fazer a diferença no combate à pandemia?
Não é só serem mais rápidos, é serem ser também mais simples, e o mais eficientes possível. Neste momento recebemos amostras que têm de vir todos os dias do hospital, várias vezes ao dia, em transporte especializado, têm de ser processadas aqui, com a extração do vírus, para depois ser amplificado e analisado, para haver resultados. A ideia é ter um teste que permita fazer isto mais rapidamente, que simplifique o processo e não exija equipamento tão especializado. Os testes poderiam até passar a ser feitos no hospital. É nesse sentido que estamos a estudar as alternativas. O nosso instituto tem uma projeção e uma responsabilidade internacional, estamos também a pensar nas vantagens que isso teria em sistemas de saúde de outros países menos desenvolvidos.

Quando é que esses testes poderão vir a ser usados?
Gostávamos de ter isso pronto em semanas ou meses, mas é difícil dizer. Não se trata tanto de inventar um teste, mas de validar um processo experimental já proposto por outros e adaptá-lo a larga escala para lidar com um grande número de amostras e, talvez, num futuro não muito longínquo, embora ninguém saiba bem quando, fazer um rastreio da população. E estes testes alternativos poderiam ser usados para isso.

Disse que a pandemia mudou a sua vida. Como é agora o seu dia de trabalho?
É complicado. Na maior parte dos dias trabalho a partir de casa. Os meus dois filhos estão em idade escolar e têm a escola também em casa. Eu e a minha mulher somos ambos cientistas, cada um tem o seu próprio trabalho, e temos que nos dividir um pouco. Tenho de gerir o meu laboratório com 17 pessoas e, apesar de não termos agora experiências a decorrer, ainda temos muitos dados para analisar e discutir e portanto temos reuniões. E para além disso há agora também toda a parte dos testes, e a gestão do instituto, porque faço parte da direção científica. Estamos todos a tentar adaptar-nos à situação. Pode ser que quando isto acabar pode ser que surjam algumas coisas positivas desta situação. Vê-se, tanto em Portugal como aqui, um certo espírito de apoio mútuo, de responsabilidade cívica e de ajuda aos outros. É uma das poucas coisas boas que têm surgido desta pandemia.

Em que momento percebeu que este ia ser um problema de grande dimensão para o mundo?
Nestas coisas não há um momento eureka. Muitos dos meus colegas e eu começámos a preocupar-nos desde que os primeiros casos surgiram na China, porque era de prever que alastrasse, e a preocupação foi depois aumentando. Mas ninguém podia prever a que ponto isto ia alastrar. Mesmo neste momento penso que ninguém sabe o que vai acontecer.

Esta é afinal aquela pandemia que os especialistas temiam que um dia viesse a acontecer?
Toda a gente pensava que ia ser um vírus da gripe. Havia a ideia de uma possível pandemia, e basta ver os discursos nesse sentido, de há bastante tempo, ​​​​​de Bill Gates ou Barack Obama, dizendo que era bom que estivéssemos preparados, e que os políticos estivessem preparados.

Olhando agora para a situação, os políticos estavam preparados?
Alguns menos do que outros. Se olharmos por exemplo para a Coreia do Sul, Singapura, Hong Kong e até a China, não sei se estavam preparados, mas reagiram rapidamente, e bem. E há outros exemplos, como a Nova Zelândia. Noutros países parece-me que se perdeu bastante tempo. O Reino Unido foi um deles, ou os Estados Unidos. E depois há outros que continuam com uma política que ninguém percebe bem, como a Suécia. Veremos como as coisas vão evoluir aí.

Na Suécia estaremos ainda a ver só a ver o princípio?
A Suécia tem mais do dobro das mortes em relação a Portugal, tendo o mesmo número de habitantes e uma densidade populacional muito menor. Mas é verdade que a curva do número de casos não parece estar a acelerar, como se poderia prever, visto que não tomaram grandes medidas de afastamento social. Pelo menos até agora.

É um caso para estudar?
Os casos são todos para estudar, porque há grandes diferenças. Portugal, com 22% da população com mais de 65 anos de idade, no fundo até nem tem uma grande taxa de mortalidade por milhão de habitantes. Comparando com Espanha, França e Itália, e considerando que temos uma grande faixa de população mais idosa, Portugal não está entre os piores.

Será por a doença ter chegado mais tarde e terem sido tomadas medidas de contenção rapidamente?
Penso que sim. O governo e a oposição agiram corretamente. Levaram isto a sério. Todos os países são diferentes e a situação política de cada país também influencia a situação, e é difícil comparar. O número de casos, por exemplo, é impossível de comparar porque isso tem a ver com o número de testes feitos. O que vale a pena comparar é o número de mortes por milhão de habitantes, mas mesmo aí também há falhas. Por exemplo, no Reino Unido não têm sido incluídas nos números da mortalidade pela doença as pessoas que morrem fora dos hospitais.

Disse que Reino Unido acordou tarde para a situação. Até houve muitas críticas, incluindo da OMS, acerca das opções tomadas. Como vê essas críticas?
Nenhum de nós tem o conhecimento total dos factos e dos fatores que levaram às decisões tomadas e portanto temos de ter cuidado, mas penso que houve ali uma altura em que se podia ter feito mais, de forma a diminuir o impacto que estamos agora a ver [até este sábado, o Reino Unido registou mais de 133 mil casos, dos quais 18.100 mortais]. Podiam-se ter preparado um pouco melhor em relação aos centros de testagem, ao equipamento de proteção essencial nos hospitais, e na questão do afastamento social. Mas, mais vale tarde do que nunca. Isso agora está a ser feito.

A ideia foi apostar na imunidade de grupo, numa altura em que não se sabia ainda como isso funciona em relação a este vírus.
Não se sabia, e ainda não se sabe. Foi uma aposta que me pareceu um bocadinho louca. É também a aposta da Suécia, que continuo a achar um bocadinho imprudente porque não sabemos quais são os parâmetros da imunidade adquirida em relação ao vírus, quanto tempo é que dura a proteção, quais são os mecanismos que levam a essa proteção, e nem sequer sabemos quais são os parâmetros que levam à própria doença. Para uma grande parte dos doentes mais graves, o problema é uma reação imunopatológica, que é a a própria resposta exagerada do sistema imunitário e que, em muitos casos, leva à morte. Ainda vai levar muito tempo para termos uma visão mais global da reação do sistema imunitário a este vírus.

Apostar na imunidade de grupo foi um equívoco?
Foi uma aposta de alto risco. Na Suécia, se ganharem a aposta mantêm a sociedade a funcionar, o que não aconteceu nos outros países. Mas neste momento não se sabe ainda o que isto vai dar em termos de imunidade, qual é a prevalência da infeção e, em relação às pessoas que foram infetadas e não tiveram sintomas, se estão realmente protegidas de uma reinfeção pelo vírus. Às vezes o problema dessas imunidades de grupo é não haver uma proteção completa. Há sempre a possibilidade de uma mutação no vírus que depois permita uma nova infeção. Isso aumenta o risco deste tipo de aposta.

Quais são os principais desafios que este vírus nos coloca?
Este é um vírus com uma taxa de infeção altíssima, que alastra muito facilmente e que tem risco de doença muito grave que pode levar à morte, sobretudo para os mais idosos, embora possa afetar também jovens. O desafio é científico. A única coisa que nos vai ajudar a sair desta crise é a investigação científica. Estamos perante o desconhecido. Ninguém sabe bem como o vírus funciona na sua interação com o sistema imunitário, o que é uma infeção assintomática e o que leva a uma doença grave, e ninguém sabe bem como se vai vacinar contra este vírus e se haverá medicamentos para a controlar. Tudo isso representa um desafio na imunologia, virologia, biologia celular e saúde pública. E a única forma é investir esforço e dinheiro para tentar perceber todas estas questões, o que terá de ser um esforço internacional. Em todo o mundo os cientistas mudaram parte do seu foco de investigação para trabalhar sobre este vírus, como acontece no nosso instituto. É importante dedicarmo-nos a este trabalho, mas temos de nos lembrar que às vezes as grandes descobertas em medicina vêm por vias inesperadas e portanto todos este esforço para estudar esta infeção tem de ser acompanhada de investigação básica sobre o corpo humano, o sistema imunitário, a epidemiologia e outros vírus em geral. E, em termos de saúde pública, o que está a acontecer não afeta só quem tem a doença, mas todos os outros que têm doenças crónicas e graves, como cancro ou doenças cardiovasculares, e que vão sofrer por não terem os tratamentos de que precisam porque os nossos sistemas de saúde estão completamente sobrecarregados. Isso vai contribuir para uma maior mortalidade em geral. Não podemos esquecer isso.

Este é o momento de aumentar verbas para a investigação científica?
Espero que os políticos e a população se deem conta de que uma das funções da investigação científica é dar resposta a este tipo de situação, e que todo o investimento feito ao longo dos anos deu frutos que podem ser usados em situações como esta. Se os políticos se lembrarem daqui a cinco anos, partindo do princípio que vamos estar fora desta situação daqui a cinco anos, que é importante investir na ciência e na formação de cientistas, será muito bom. Em geral, os políticos têm memória curta. Não sei se as coisas mudarão fundamentalmente, mas pelo menos de momento a população dá-se conta de que os únicos que podem tirar-nos desta situação são os cientistas, os médicos e as pessoas ligadas à saúde. Esperemos que isso perdure.

Vamos ter de ficar mais ou menos confinados até aparecer uma vacina?
Esperamos obviamente que haja uma vacina, mas todos sabemos que isso vai demorar bastante tempo, e temos de ver se será eficiente. Há países como a China e outros que estão cautelosamente a retomar a uma certa normalidade. Seria bom que houvesse um rastreio da população e uma forma de isolar os casos positivos muito rapidamente, e todos os seus contactos, o que talvez não seja uma política muito a nosso gosto nos países ocidentais, em que há uma certa relutância em perder uma parte da liberdade pessoal. É possível que não funcione em determinados países, ou que não seja possível fazê-lo. Vai haver soluções diferentes em países diferentes. Esperemos é que se baseiem em dados da ciência e sejam implementadas de forma racional. Reconheço que a economia e o bem-estar das populações são ambas prioridades, e os políticos vão ter de jogar com esses parâmetros e decidir o que será melhor para os seus países. Isto não vai desaparecer daqui a poucas semanas, mas também não sabemos quanto tempo isto vai durar.

 

FONTE Filomena Naves DN.PT

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